A torcida do Palmeiras tem um histórico negativo de
violência, com agressões a torcedores e dirigentes. O diretor-executivo do
clube, José Carlos Brunoro, admite que tem receio de uma discussão mais ríspida
com torcedores em locais públicos. “Eu nunca temi pela segurança física. Mas eu
temi por discussões em público, a pessoa vir tomar satisfações”, contou. O
dirigente falou em seu escritório no CT do clube para uma entrevista
exclusiva e falou também sobre os desafios de sua nova etapa no Palestra Itália.

Brunoro falou sobre as dificuldades com a resistência interna no
Palmeiras, especialmente após a venda de Barcos, o que gerou insatisfação de
muitos conselheiros. Ele adiantou que pediu a uma empresa um estudo completo
para ver em que pé estão todos os departamentos e que pretende estruturar
melhor o clube, inclusive os projetos para o centenário, em um prazo de três
meses.
O dirigente também comparou a situação
atual do clube com sua primeira passagem, na década de 1990, quando teve uma
vitoriosa parceria com a Parmalat. Brunoro revelou que o orçamento de 2013 está
todo comprometido e que a prioridade no momento é remontar um elenco forte e
barato. Leia abaixo a entrevista com Brunoro.
- Após a negociação com o Barcos,
alguns conselheiros ligaram ao presidente Paulo Nobre para pedir a sua cabeça.
Como lidar com isso?
José Carlos Brunoro - Para mim é
normal. Em todo meu trabalho eu quebrei paradigmas. E quando isso ocorre,
acontece uma rejeição. Já estou acostumado. 90% dos meus trabalhos deram certo
e estou muito consciente do que fiz, do que estamos fazendo e do que faremos.
Agora, profissionalmente você pode ser contestado. Podem querer que eu saia.
Mas quem tem interesse que eu saia tão rapidamente é porque tem interesse que o
clube continue com problemas. Como querem dispensar alguém em 20 dias? Querem
que continue como está, mas é minoria. O trabalho vai mostrar que o Palmeiras
está em um caminho moderno, respeito opiniões, dou explicações e as pessoas
podem gostar ou não. Não posso querer que todos aceitem meu trabalho. O
presidente pode me tirar quando quiser, mas acho que seria ruim o Palmeiras
perder esse processo de profissionalização que estamos implantando.
- A torcida do Palmeiras tem um
histórico de violência. Você já temeu pela sua segurança?
Brunoro - Eu sou um cara
que,mesmo quando fui muito famoso, nunca deixei de frequentar nenhum lugar em
função de atitude de torcedores. O caso do Barcos magoou todo mundo, até nós.
Quem não gostaria de ficar com o Barcos? O Paulo sofreu muito, eu sofri, mas
não teve jeito. Eu nunca temi pela segurança física, inclusive continuo saindo.
Mas eu temi por discussões em público, a pessoa vir tomar satisfações.
- Em 92, entrou mais dinheiro do que é
possível entrar hoje. Quanto tempo vai levar para organizar a casa hoje?
Brunoro - Não é bem
assim. Se você se lembrar bem, quando assumimos em 92 o time estava em 13º ou
14º no Paulista. Chegamos em março de 92, pedi dois meses para tomar ciência do
clube e montar um projeto, que é que estou fazendo hoje também. Escreviam
nos muros ‘Parmalat é ilusão’, então temos de ter um tempo para tomar pé das
coisas. Contratamos o Mazinho e o Zinho e trouxemos o Evair, que estava
afastado e remontamos o time em quatro meses. Chegamos em segundo. Hoje, vamos
ter uma condição um pouco melhor de estruturar a partir de junho ou julho, já
teremos tomado pé do marketing para ver o que fazer. Preciso de três meses, por
aí.
- Qual foi o maior problema que você
encontrou?
Brunoro - Foi pegar o
carro andando, sem saber da situação financeira, com os campeonatos em
andamento e com janelas fechadas.
- O Palmeiras, mesmo na Série B, tem a
mesma cota de dinheiro da Séria A, porque é o primeiro ano e tem o acordo com o
clube dos 13. É time grande, tem dinheiro e torcida. Tem obrigação de ser
campeão da Série B?
Brunoro - Acontece o
seguinte. Obrigação é muito difícil. Eu posso ter dinheiro todo da série A, mas
e se já foi utilizado? É o caso. É complicado. A gente acha que vai resolver as
situações, vamos realinhar o marketing. Palmeiras vai ser o clube de maior
visibilidade da TV aberta. Quando jogar de sábado de tarde, todos vão
transmitir o jogo do Palmeiras. Mas a vida não está mole não.
- Você quer ser presidente do
Palmeiras?
Brunoro - Eu sonhei com
isso. Há muito tempo, hoje já não dá mais tempo. Já estou com 62 anos, acho que
o Palmeiras tem que arejar. Já voltei, está tudo bem.

